Cuiabá, 03 de agosto de 2020

Idiossincrasias

Por: Ana Claudia Fortes - 15 de abril de 2020

Eu fui uma criança calada que mais observava do que falava. Por causa disso o meu pai desconfiava que eu tivesse algum retardo mental, mas a minha mãe contestava e afirmava que eu fazia tudo sem problemas. Entretanto, na antiga 5ª série do primário eu fui estudar com a famosa normalista, a querida professora Judith Barreto de saudosa memória e de prestígio incontestável, na Escola Idalina de Farias que existe até hoje na pequena cidade do interior onde eu fui criado.

Ela apresento-nos o famoso livro Vamos Estudar. Era um livro completo, onde se aprendia quase tudo, inclusive diversas biografias de vultos da história do Brasil. A referida professora dava as biografias como lição para decorá-las e, em aulas seguintes chamava um por um dos alunos para que repetisse, tal qual escreveu o autor, a descrição daqueles personagens. E eu não conseguia repetir ipsis litteris o que autor escrevera. Daí, as suspeitas do meu pai se confirmaram. Este menino tem algum problema, porque os outros alunos conseguem e ele não. Chegou um acordo com a aludida professora para que eu decorasse apenas metade da tarefa e eu fui derrotado novamente.

Um dos meus grandes desejos sempre foi decorar poemas, assim como faz o engenhoso Moisés Martins, mas não consigo. A única coisa que consigo, com alguma facilidade, é lembrar de episódios históricos e citar alguns trechos, desde que pequenos, de autores que eu gosto, como Machado de Assis. Alguns dos meus textos são recheados dessas citações.

O acima relatado é para demonstrar que sou avesso à decoreba e com coisas que eu acho desnecessárias e inúteis. Daí a minha grande dificuldade com as ciências exatas e com tudo aquilo que não decorre de uma lógica coerente e aceitável. Os meus tropeços com a Língua Portuguesa decorrem de tal deficiência. Não consigo recordar e nem acho necessário fazer a diferença entre os pronomes: este e esse.  Entre nisto e nisso e, muito menos, isto e isso, deste e desse, bem como entre por que, porque ou porquê e etc. Creio que tais minudências não deveriam existir. Se essas (estas) palavras fossem unificadas com o mesmo significado e a mesma grafia facilitariam em muito o aprendizado e o entendimento da língua.

Quem sou eu, entretanto, para contestar a Língua de Camões e, muito menos, querer reforma-la. Sou apenas um articulista retardado, desde a infância, que insiste em liquidar, toda quarta-feira, a Língua Portuguesa, impondo aos leitores as suas parcas impressões sobre os fatos, o cotidiano, o futuro, a vida e seus desdobramentos.

O aqui relatado constitui uma das minhas idiossincrasias, cuja grafia de como se escreve constitui a minha obsessão, pois toda vez que tento fazê-lo tenho que consultar o dicionário.

Renato Gomes Nery. E-mail- rgnery@terra.com.br