Cuiabá, 30 de outubro de 2020

Juiz fala sobre o resultado do Araguaia Cidadão

Por: Ana Claudia Fortes - 17 de dezembro de 2019

Preocupado em chegar até as comunidades mais distantes, que normalmente não têm acesso aos serviços básicos do poder público, o Poder Judiciário de Mato Grosso desenvolveu a expedição “Araguaia Cidadão”, com o objetivo de levar serviços do judiciário, de saúde e de cidadania para a população de locais carentes por conta da distância dos grandes centros.

O juiz José Antonio Bezerra Filho foi quem coordenou do projeto “Araguaia Cidadão” e conta, em entrevista ao Newsjur, como funciona o programa, quais as adversidades e o resultado do trabalho.

 

NJ- Dr. fale um pouco sobre a atuação do projeto “Araguaia Cidadão” em 2019.

R: Essa foi uma das metas da atual administração do desembargador Carlos Alberto Alves da Rocha, ao que me incumbiu para fazermos o “Araguaia Cidadão”. O projeto foi dividido em duas etapas.

A primeira etapa saímos em agosto, fomos em seis cidades: Alto Araguaia, Araguainha, Ponte Branca, Ribeirãozinho, Torixoréu e Pontal do Araguaia. Foram dez dias onde realizamos cerca de 28 mil procedimentos.

Foi um trabalho que levamos a inclusão social, as ações judiciárias, os nossos produtos judiciários como, mediação, conciliação, “Pai Presente”, Juvam e Justiça Comunitária. Tivemos também os serviços junto aos nossos parceiros que vieram a agregar essa ação.

A segunda parte do projeto era muito mais complexa, saímos no mês de novembro e fomos para Luciara, Santa Terezinha, São Felix do Araguaia, Novo Santo Antônio e Cocalinho. Estamos fechando os números de atendimentos.

Embora tenha sido em cinco cidades, obtivemos números bastante expressivos e que refoge bem o eixo da questão da acessibilidade, eram regiões de população bastante carentes e que puderam ter acesso aos serviços. Chegamos ao número de 26 procedimentos, e isso nos mostra uma viabilidade do Judiciário sair da sua “intocabilidade” e ir ao encontro do nosso jurisdicionado, propicia ao executivo com políticas públicas, serem nossos parceiros, o legislativo municipal e também o estadual associar conosco nessa parceria. Quando toda essa engrenagem está voltada ao bem comum, a servir, e a integração, as coisas acontecem.

NJ- Quais as dificuldades físicas e estruturais para um projeto como esse?

R: A primeira etapa, fizemos um total de 1.400 Km, com todos os tipos de adversidade, asfalto, terra, chuva, lama, animais na pista e até mesmo problemas mecânicos, juntamente a um comboio de caravana de serviços. Foi onde tivemos o conhecimento sobre o que ainda enfrentaríamos.

A segunda etapa, fizemos um total de 4.830 Km percorridos, com o mesmo propósito da caravana de expedição, com 3 caminhões, 22 caminhonetes e serviços. Contamos com quase 80 profissionais, fora os profissionais locais, aos quais conclamamos a sociedade a participar conosco. Fizemos um grande esforço, onde o mérito é de todos.

NJ- A Caravana atendeu também a população indígena, conte um pouco sobre como foi o trabalho.

R: Chegamos na aldeia indígena dos Carajás, na região de São Felix do Araguaia e fizemos um trabalho à moda antiga, “o escambo”, ou seja, fizemos uma propositura ao cacique, daríamos os sacos de lixo para ele, e ele juntamente com a população local indígena (crianças, adolescentes e adultos), fariam a limpeza em torno da sua casa. Todo o material coletado, trocamos com eles por roupas. Foi fantástica essa ideia, porque mostramos a eles que a limpeza trás saúde pública para a população indígena. O cacique ficou envaidecido, porque fez com que toda sua tribo junta, participasse na liderança dele, e que fizessem a parte deles, enquanto nós judiciário faríamos a nossa.

NJ-Qual a visão do senhor em relação a essa atual gestão?

R: É um judiciário diferente, proativo, voltado a uma proposta diferente de trabalho, que nós acreditamos. Tenho certeza que deixamos um legado, uma semente foi plantada e outros virão a fazer essa audácia. A população está carente e sedenta de serviços, nós precisamos integrar. Então eu acredito que esse é o desafio do Judiciário para os anos que virão, fazer a presença, nós somos servidores públicos, agentes públicos, voltado a esses anseios.

NJ- É possível então, na visão do senhor, levar a justiça até o cidadão? Acredita que o “Araguaia Cidadão” mostrou isso, ou acredita ser um projeto com o custo elevado?

R: Mostrou a viabilidade, basta a conscientização e o interesse de agir. E tudo isso que fizemos contamos com parceiros, e com o menor custo possível, isso é fundamental dizer, não foi aquele trem da alegria.

Cada um no seu mundo, resumido a uma caminhonete com um serviço. Cada carro tinha um serviço a prestar, cada equipe tinha uma responsabilidade para o seu ente estatal ou federal, assim como conosco do judiciário.

Então mostra que é possível fazer essas audácias, que são meios alternativos de solução e pacificação de conflitos, de inclusão social, que embora embrionariamente futuramente darão bons frutos.

NJ-Qual o resultado dessa ação?

R: Eu acredito nessa proposta de trabalho, o presidente [do Tribunal de Justiça] também acreditou, e o resultado é a satisfação das pessoas aos quais atendemos, mostra-se um judiciário mato-grossense, produto nosso, diferenciado.

Então são metas e desafios dessa atual administração, que propiciaram que o Vale do Araguaia, conhecido como o “vale dos esquecidos”, nunca mais será esquecido.

 NJ- Qual é a previsão para a próxima edição?

R: O próximo projeto será o “Ribeirinho Cidadão”, que acontecerá do dia 28 de fevereiro a 22 de março de 2020, teremos a parte fluvial e parte terrestre.