Cuiabá, 31 de outubro de 2020

O divórcio

Por: Ana Claudia Fortes - 19 de agosto de 2020

Advogada Gisele Nascimento

A palavra divórcio vem do latim – divortium – separação, derivada de divertere, que significa, tomar caminhos opostos, afastar-se”. Outro significado para o divórcio é aquela que aparece na expressão – divortium aquarum – que significa, “separação de águas”, que é a linha a partir da qual as águas correntes tomam caminhos diferentes.

Dizem que tudo tem o tempo certo, e a hora certa para acontecer.  Quem ainda não ouviu aquele velho conselho, “talvez ainda não seja a hora certa”. Espera mais um pouco, ou seja, dá mais um tempo. E qual é hora certa? A vida está paulatinamente me mostrando que quem faz a hora, é o próprio ser.

Digo isso porque, ninguém sabe, na verdade, quando é a hora certa, pois, pode ser a qualquer hora. O que parece mais assertivo, é que a hora é agora, pois, hoje não é amanhã.

Mas, se você não fizer não saberá se àquela hora era a hora. Afinal, sobre o que eu vou falar? Do divórcio, todavia, não, necessariamente, no contexto da separação de um casal, de uma certa maneira, também.

Tudo é temporário, a vida que vivemos, o trabalho que temos, os amores que vivemos, e essa temporariedade, tem que ser levada muito a sério, justamente, por causa da brevidade que temos para poder construir à nossa história, vez que a vida é uma – tábula rasa – um livro composto por páginas em branco, e tudo o que lá é escrito, é de sua única e exclusiva responsabilidade, e consequentemente, de suma importância para o seu crescimento pessoal e espiritual.

Até por isso, não se pode escrever a lápis, visando apagar caso não dê certo! Não tem como apagar e reescrever, partindo daquele ponto que bifurcou lá atrás, que deu errado, por exemplo. Encruzilhadas! É isso o que temos na vida, diversas delas. As encruzilhadas nos perseguem, vez que elas nos obrigam a escolher todos os dias, pois, nos apresentam os pontos críticos daquilo que precisam ser alterado, ou seja, mutatis mutandis. Temos que fazer às nossas escolhas, “sair de cima do muro”.

Vez que não dá para levar à vida sempre na instabilidade, indecisão e dúvidas. A dúvida faz parte do nosso processo de vida, mas, ela não pode ser determinante, pois, senão não amadurecemos. É tomar a decisão que te faz alavancar dado que você terá que entrar em ação para implementar/modificar o teor daquilo que propôs alterar, pois, uma ação, corresponde a uma reação. Mas, qual decisão?

Qualquer que seja, que o retire da zona de conforto. Todos temos uma capacidade salutar de aprender, de conviver com o novo, mas, para o novo se sentir pertencente, os velhos hábitos devem ser enviados para a caixa da lixeira. Como disse o filósofo, Clóvis de Barros Filho, “pra trás nem pra pegar impulso”.

É certo que muitas decisões nos deixam de coração partido. Quem nunca? Mas, mesmo assim é necessário, afinal, Deus te fecha uma porta, mas, te abre uma janela, com uma varanda de frente para o mar. Essa frase não é minha, e não fui verificar, mas salvo engano, já a citei em outros devaneios textuais de minha autoria, em razão dela me trazer coragem, inspiração e ação.

Como disse o poeta Mizuta Masahide, “minha casa se incendiou. Agora nada mais oculta, a visão da lua”. Nem todo reconstruir pode ser perfeito, mas não tenha dúvidas, de que foi necessário o enfrentamento, mesmo que com descontentamento, à frente, te fez gente, livre e refeito, para recomeçar àquilo que se propôs mudar.

O seu livro está sendo escrito, por um contador de história, muito bom, você! Ou você não é um bom protagonista? É um coadjuvante? Aqui é um ponto de autorreflexão, vez que não dá para construirmos à nossa história, e tomar as decisões de mudanças, pisando em ovos o tempo todo, tendo em vista que esse comportamento enfraquece todo o sistema mental, e cria medos.

Portanto, divorcie-se, daquilo que não te faz bem! Não interessa o que quer que seja, um trabalho estagnado, um casamento falido, um noivado capenga, a profissão que não te faz feliz, ‘um namora de mentirinha’, um corpo que não te agrada, àquela amizade tóxica, os relacionamentos violentos, às sociedades improdutivas, etc.  Não nos sabotemos diante daquilo que não nos faz bem.

Como disse, Rita Lee, em uma de suas músicas, “no fim da avenida, existe uma chance, uma sorte, uma nova saída, são coisas da vida e a gente se olha e não sabemos se vai ou se fica”.

 É preciso assumir às nossas histórias e construir um novo final, enfrentando às verdades sem trapaças, sem se entorpecer com os espinhos que nos espetam, vez que quando embotamos o que é sombrio, o que também é luminoso fica ofuscado.

O carro na garagem está seguro, o problema é que se você não retirá-lo de lá, nunca irá a lugar algum. Dê a si mesmo a permissão para entrar na sua história, para sentir e vivenciar, sem ficar com aquela sensação de que algo pode dar errado. Autorize-se, a sondar novos rumos, porém, de forma alinhada.  Como disse, Brené Brown, “é hora de partir para a descoberta”.

Gisele Nascimento é advogada.