Cuiabá, 08 de março de 2021

Os domingos delas

Por: Ana Claudia Fortes - 23 de fevereiro de 2021

Defensora pública estadual, Rosana Leite Antunes de Barros

A violência doméstica e familiar não tem mais onde causar espanto. Pesquisa realizada pelo Fórum Nacional de Segurança Pública apontou que é o domingo o dia em que as mulheres mais são agredidas dentro de casa por seus companheiros.

A palavra domingo é originária do latim, ‘dies Dominicus’, que segundo o cristianismo significa ‘dia do Senhor’. Já os pagãos, em reverência aos deuses, dedicavam o dia de domingo ao astro Sol, ‘Dia do Sol’.  Sem dúvida, como primeiro dia da semana, o domingo deveria vir carregado de esperança, com o recomeço. Todavia, não tem sido de grande felicidade para as mulheres.

O Fórum Nacional de Segurança Pública, entre os anos de 2015 a 2019, apontou que esse é o dia da semana onde mais são registrados casos de violência doméstica e familiar. Ao todo, pelo estudo, 22% dos eventos acontecem na respectiva data. As variadas alegações surgiram para tentar explicar o inexplicável.

Por que acontece mais neste dia? Seria o dia de maior convivência entre a vítima e agressor? Sem contar que a pesquisa aconteceu antes do período pandêmico.

O uso de álcool e substâncias entorpecentes estaria a contribuir para a estatística? Ou o costumeiro jogo de futebol?

Nada, por óbvio, nada pode justificar. O agressor em algum momento mostraria o desrespeito à mulher. Os fatores externos nunca conseguirão surtir explicações suficientes para a violência, qualquer delas. Cabeça quente? Nervosos, por serem do sexo masculino? O futebol, por carregar uma carga maior de masculinidade, estaria a contribuir, já que as partidas se concentram na data? O estresse pelo trabalho, pois no outro dia, segunda-feira, representa a volta ao labor?

Em segundo lugar ficou o sábado com 17% das ocorrências, e, em terceiro a segunda-feira com 14%. De terça à sexta os números diminuem para 12%. O estudo ainda apontou, sem especificar o dia da semana, ser à noite o período onde essas violências na maioria das vezes são registradas, cerca de 40%.

Posse? Objetificação do corpo da mulher? Obrigação da submissão feminina ao homem? A realidade é que a cada dois minutos uma mulher tem sido agredida dentro de casa no país, com aproximadamente 266 mil casos anuais.

As análises não param de acontecer, na tentativa de explicar ou prevenir esses absurdos episódios. Porque alguém se uniria a outrem com o intuito de promover agressões, ao invés de amor? Qual o motivo de não cindir um relacionamento a tempo de evitar as temíveis violências?

O texto vem carregado de muitas perguntas. As respostas ficam em nossas mentes. A certeza, a verdadeira certeza, é a de que a ninguém é dado o direito de agredir a outrem.

E se outrora, homens e mulheres, toleravam algum tipo de violência às mulheres, os tempos são outros… Agora? É inaceitável, ou melhor, é crime!

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual