Cuiabá, 30 de outubro de 2020

Presidente da Subseção de Vila Rica fala sobre o apoio da OAB-MT e os desafios da profissão

Por: Ana Claudia Fortes - 21 de abril de 2020

Advogado Sergio Roberto Junqueira Zoccoli Filho

A advocacia é uma das profissões mais tradicionais do mercado. Para muitos profissionais da área, apenas a construção de uma boa reputação era suficiente para ter sucesso. Assim, não existia a necessidade de buscar novos meios para se destacar. Porém, essa realidade mudou. Em tempos de pandemia, além de ser um profissional confiável e com notáveis conhecimentos no Direito, o advogado precisa oferecer soluções efetivas ao seu cliente.

A sociedade está assistindo de forma inédita os impactos que uma pandemia gera em um mundo totalmente conectado. As consequências econômicas e humanas ainda não podem ser quantificadas, mas o impacto nas profissões e na empresas é inequívoco. Portanto, advogados que querem sobreviver em um mercado cada vez mais competitivo, precisam inovar.

Em entrevista ao Newsjur, o presidente da 27ª Subseção Vila Rica da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional de Mato Grosso, Sergio Roberto Junqueira Zoccoli Filho, fala sobre os desafios da profissão, a atual relação do advogado com o cliente e o apoio que a OAB têm dado a classe em tempos de pandemia.

 

NJ- Quais os principais desafios de ser presidente de uma Subseção da OAB-MT?

R: Ter a oportunidade de estar presidente de uma subseção da OAB-MT é algo indescritível. Representar uma classe tão seleta de profissionais é motivo de orgulho e uma responsabilidade sem precedentes.

A 27ª subseção da OAB abrange os municípios de Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia, Canabrava do Norte, Confresa, Luciara, Novo Santo Antônio, Porto Alegre do Norte, Santa Cruz do Xingu, São Félix do Araguaia, São José do Xingu, Serra Nova Dourada, Santa Terezinha e Vila Rica. Então, levar o sistema OAB a todas essas comarcas e fazer-se representar em tantos locais não é tarefa fácil. Conto com uma diretoria atuante e vários colegas parceiros da OAB que apresentam os problemas da advocacia nas Comarcas onde atuamos.

Representar cidadãos que são conhecedores da lei e de direitos é, além de honra, um exercício do contraditório e da coletividade.

Diariamente, somos indagados por colegas de classe ou até mesmo pela sociedade, e chegar a um denominador comum não é tarefa fácil. Por isso, prezo sempre pelo diálogo e ter a temperança necessária para que o posicionamento represente a classe.

NJ- Se o senhor elegesse uma prioridade a ser trabalhada pela sua subseção, qual seria?

R: No momento em que vivemos, face a essa pandemia sem precedentes, eu quero conseguir amparar o maior número de colegas possíveis. Ser profissional liberal não é fácil, imagina quando o sistema que este profissional trabalha encontra-se paralisado.

Nós, advogados e advogadas, em sua maioria, não temos salário fixo nem renda estimada. Dependemos de ações, de andamentos processuais e atos processuais que estão suspensos.

Penso que enfrentaremos uma crise financeira sem precedentes. Mas podemos contar com o sistema OAB.

NJ- Em sua Subseção, quais são as principais características da atuação da OAB e qual é o perfil do advogado local?

R: Nossa Subseção é grande e nos encontramos na última fronteira agrícola não explorada do Estado. O agronegócio não para, tem um ritmo contínuo de trabalho. Ou seja, há uma vasta gama de serviços que pode ser realizada por pela advocacia.

Atualmente, temos muitas transferências de advogados para nossa região e a cidade de Vila Rica possui uma turma de Direito da Universidade do Estado de Mato (Unemat) que formará 100 novos bacharéis no fim do ano. Nossos quadros possuem tanto advogados mais antigos, quanto mais jovens, que vêm em busca de oportunidades nessa região.

NJ-Como é o relacionamento da Subseção com a Seccional?

R: Não poderia deixar de registrar aqui minha homenagem ao nosso presidente da Seccional de Mato Grosso, Leonardo Campos, que não mede esforços para se fazer presente na região, bem como nos representar e acompanhar em pleitos regionais junto ao Tribunal de Justiça, TRT 23 e outros órgãos. Dr Leonardo é uma pessoa incansável. Sempre atencioso, em tempos de pandemia não deixa de realizar nossas reuniões nem que seja por meio eletrônico.

Na semana passada reunimos 20 presidentes de Subseções e diretoria da OAB-MT em ambiente virtual para debatermos estratégias, decidir os rumos do sistema além de oportunizar que cada presidente apresentasse seus pleitos.

Realizamos, duas vezes por ano, o colégio de presidentes, onde reúnem-se os presidentes das subseções e os delegados da Caixa de Assistência dos Advogados – CAAMT com a diretoria da seccional.

Então, posso afirmar que nosso relacionamento com a Seccional é ótimo e sempre podemos contar com o sistema OAB.

NJ- Ac4redita que a participação da OAB diante da sociedade e dos advogados mudou nos últimos tempos?

R: A advocacia é contemporânea. Digo isso pois é um dos elementos que formam o direito. Leis são criadas a partir de eventos/movimentos que a sociedade identifica como necessários.

Com o advento da sofisticação dos produtos eletrônicos e o acesso amplo a internet, fez com que o advogado se apresentasse como um mediador entre a sociedade e o judiciário.

Atualmente, o cidadão chega no escritório para verificar se a informação que ele obteve, procede. Nós advogados, passamos de orientadores para verdadeiros professores das matérias. Somos questionados pelos clientes que têm um acesso a informação, que muitas vezes não é verídica. Cabe a nós provar a linha de atuação para sermos contratados. Acredito que isso acresceu e muito a relação entre o cliente e o advogado.

Entretanto, as falsas informações ou fakenews tem gerado muitas desavenças ou formação de conceitos errados. A OAB tem papel fundamental na defesa dos cidadãos e da Constituição, e mais que nunca se espera um posicionamento constitucional sobre temas envolvendo interesses nacionais.

NJ- Em sua opinião, como deve ser o relacionamento entre advogado e juiz?

R: O advogado é indispensável à administração da Justiça. Parece clichê, mas é a pura verdade. O relacionamento do advogado com o magistrado deve sempre ser pautado pelo respeito mútuo entre as partes.

Em um ambiente onde esperamos formar convencimento, não há espaço para desrespeito ou até mesmo deslealdade. Mais do que nunca, esperamos do Judiciário decisões que atendam o anseio da sociedade, desde que amparadas pelos textos legais. A segurança jurídica é medida que se impõe e fortalece o judiciário.

O cidadão confia na justiça e ele só espera isso dela, justiça!

NJ-Quais os principais desafios do advogado contemporâneo em um cenário de restrição de mercado profissional e enorme contingente de bacharéis?

R: O advogado precisa se reinventar. Não somos mais os detentores da informação. Como já disse anteriormente, o cidadão já chega no escritório com o nome da petição que ele acha ser a que deve ser apresentada pelo advogado.

O advogado e a advocacia têm que se valorizar. O saber jurídico tem um preço. Não pagamos consulta para irmos ao médico? Por que não pagarmos quando consultamos um advogado?

Partindo deste ponto, o advogado tem que pautar suas atitudes para não cometer infração ético-disciplinar. Existem limites bem estabelecidos que configuram condutas que podem gerar até o cancelamento do registro nos quadros da Ordem.

Quanto aos bacharéis, não há como equipará-los aos advogados regularmente inscritos nos quadros da OAB. Penso que os cursos de Direito precisam focar muito mais na formação dos bacharéis para que, ao terminarem o curso, os mesmos possam ter condições de serem aprovados no exame de OAB e engrossar as fileiras da advocacia.

Esses cursinhos preparatórios são caros e sua multiplicação demonstra a ineficiência das universidades na formação dos alunos.

NJ-Se fosse definir a sua profissão de advogado em uma só palavra, qual seria?

R: Indispensável.

NJ- Quais as principais dificuldades do dia-a-dia da profissão em sua cidade?

R: Certamente os custos operacionais e a morosidade judicial. Não é barato se tornar advogado. Manter-se advogado, nem se fala. O advogado é indispensável à administração da Justiça, mas para que ela seja feita, esse profissional tem quem contar com um aparato de equipamentos que não são poucos, nem mesmo baratos.

Temos que ter certificado digital, uma ferramenta que consiga acessar o certificado e nos garantir acesso aos processos, internet de ótima qualidade. Para que isso dê certo, tudo tem que funcionar na mais perfeita harmonia. Não possuímos conhecimentos técnicos para gerenciar estes aplicativos e mantê-los em sincronia, que além de dispendioso, exige paciência.

Quanto a morosidade judicial, atualmente contamos com 5 varas, só na minha subsecção, sem juiz. A prestação jurisdicional tem demorado muito e isso impacta na remuneração do advogado, bem como na procura do cidadão pela justiça.

Explicar para um cidadão que o processo dele vai demorar em média, 10 anos, não é fácil. Fazer ele investir nesta prestação jurisdicional com esse lapso temporal é mais difícil ainda.

NJ- Na condição de advogado e cidadão, qual é o conselho que daria a um advogado iniciante?

R: Digo sempre o que aprendi com a fala do saudoso Dr. Wanderley de Medeiros: “Sejamos advogados. Mas sejamos principalmente homens identificados com a Corporação, cioso de seu insuperável valor, honrados com a nossa carteira vermelha, para que possamos exibi-la como Maiakóvski: Lede e invejai-me: sou membro da OAB! “