Cuiabá, 30 de novembro de 2020

Psicóloga fala sobre caminhos para lidar com problemas emocionais na pandemia

Por: Ana Claudia Fortes - 8 de setembro de 2020

Psicóloga Renata Livramento

Medo de ser infectado pelo novo coronavírus, preocupação com familiares e amigos, longos períodos sem sair de casa… Essa realidade, imposta pela pandemia, tem gerado ansiedade, frustração e tristeza em muitas pessoas. Dicas de como lidar com esses sentimentos foram apresentadas pela psicóloga Renata Livramento na Rádio TRT FM 104.3.

Renata, que também é doutora e mestre em administração e atua na área da psicologia positiva, falou sobre três caminhos possíveis para enfrentar as consequências psicológicas da pandemia. Ela também ressaltou a importância de se buscar ajuda profissional, tanto para tratar de doenças já instaladas, como para atuar na prevenção.

Como lidar com as frustrações geradas pelo impacto da covid-19?

Essa pandemia está gerando muita frustação e estresse. Para lidar com isso, resumidamente, podemos falar em três caminhos. O primeiro é da aceitação e autocompaixão, saber que não vamos dar conta de tudo, que não somos super-heróis, que temos limites e que estamos fazendo o melhor possível em uma situação para a qual não fomos preparados para viver.

O segundo é o caminho da pausa, se permitir parar durante o dia. As pessoas têm acumulado funções e como estamos dentro de casa elas estão todas misturadas. Então, é preciso parar, ter momentos de descanso e momentos conscientes que você vai dizer: “agora é meu momento de descanso”. É preciso descansar porque sem descanso, sem pausa, não há recuperação do corpo.

Por fim, o caminho da vivência de emoções positivas e emoções agradáveis. Já que não podemos tê-las coletivamente, precisamos criá-las dentro da nossa casa. Escutar uma música, fazer uma refeição gostosa, saborear as coisas que acontecem, as pequenas coisas do dia a dia e que nos fazem bem. Esses são os três caminhos possíveis para lidar com a pandemia.

A pandemia pode piorar problemas como depressão e ansiedade?

Sim. Para quem já tinha alguma condição de saúde prévia, tanto física quanto emocional, ou para quem tem tendência. Essas pessoas têm mais probabilidade de desenvolver ou agravar seus quadros. O confinamento, medo da contaminação, as possibilidades imitadas que temos de válvulas de escape para nosso estresse, para nossa tensão, tudo isso contribui para o agravamento de condições prévias de saúde mental, principalmente depressão e ansiedade. Estes quadros estão aumentando ou se agravando nessa pandemia, como várias pesquisas já têm apontado.

Precisamos prestar muita atenção porque se você tem uma tendência ou já tem um histórico de algum tipo de transtorno ou até mesmo de uma Síndrome de Burnout, a pandemia pode te colocar em uma situação de vulnerabilidade emocional.

Como a psicologia positiva aborda a saúde mental, em especial nesse contexto de pandemia?

A psicologia positiva é uma proposta integrativa do ser humano. Ela olha para o ser humano como um todo, não apenas para o transtorno, para o sofrimento, para o problema, para a dor. Nesse sentido, ela tem um potencial preventivo enorme porque olha também para os recursos que o indivíduo tem. É uma possibilidade muito interessante para a saúde mental. A gente não precisa esperar que as pessoas estejam doentes para fazer alguma coisa para ajudá-las.

Quando já há um quadro instalado, ela também ajuda na medida em que potencializa aquilo que já está bom e saudável. Vai fazer com que o indivíduo tenha mais condições de enfrentar e lidar com as partes que não estão tão boas. A gente trabalha tanto preventivamente, quanto terapeuticamente, sempre vendo o ser humano como um ser total, que tem sofrimento, mas que também tem forças.

Quando é preciso pedir ajuda de um profissional?

Qualquer pessoa pode buscar a ajuda de um profissional para cuidar da saúde mental. Da mesma forma que cuidamos da saúde física, podemos e devemos cuidar da saúde mental. Você pode agir preventivamente, fortalecendo os aspectos saudáveis que você tem. Acho que isso seria, inclusive, o ideal.

Existem pessoas que já estão com alguns sinais, como alteração do sono ou apetite, que podem se agravar e se transformar em transtornos mais graves. A gente sabe que insônia e compulsão alimentar tem se agravado nessa pandemia. Outros fatores são irritabilidade, pessoas com problemas de relacionamento, pessoas com a sensação de cansaço crônico, que estão sempre cansadas e não conseguem sentir um alívio das suas pressões.

Também estão em risco pessoas que apresentam dificuldades de memória, muita dor de cabeça e no corpo e que já foi avaliado que não tem nada físico; pessoas que estão fazendo abuso de substâncias como álcool, medicamentos para dormir ou até mesmo drogas ilícitas, além de pessoas em luto e que estão vivendo muitas perdas neste momento.

Tem uma lista enorme com os sinais mais frequentes e que justificariam a pessoa buscar ajuda profissional para evitar transtornos mais graves e mais incapacitantes. Eu reforço que qualquer pessoa pode e deve investir na sua saúde mental. Não devemos esperar o problema acontecer, podemos prevenir!

Quais orientações podemos seguir para cuidar da nossa saúde mental?

Existem vários caminhos para cuidarmos da nossa saúde mental. Eu dividiria em três caminhos básicos e complementares.

O primeiro deles seria o autoconhecimento: é impossível cuidar da saúde mental sem você se conhecer, sem entender as próprias emoções.

O segundo caminho é o investimento em bem-estar: passa por ter uma rotina organizada, dormir bem, fazer uma atividade física, cuidar para não ter excesso de informação, ter momentos de emoções agradáveis, cuidar dos relacionamentos e se conectar com seu propósito de vida.

Por fim, temos os momentos de recuperação, de válvula de escape, de descompressão. Estes três elementos são essenciais para termos uma boa saúde mental.